17 de jun de 2013

Brasil, mostra a sua cara: a verdadeira, por favor.

E mais uma vez, lá vem o povo, muito parecido com aquele velho gado de sempre, sendo conduzido pelo berrante da imprensa -pretensa formadora de opinião- e pelas poderosas varas farpadas do poder público... e tudo isso sem sentir-se manipulado, acreditando que age por si, que detém ética, que pode exigir direitos sem cumprir deveres, de qualquer modo...
Povo marcado, iludido, povo feliz.
...
Dizem que o povo brasileiro é pacífico. Discordo. Somo sim, submissos. Muito tempo sob o jugo do imperialismo e da ditadura fizeram uma lavagem absoluta na nossa capacidade de iniciativa ética. Esquecemos que o começo de toda ação sólida é individual e não coletiva. Assim como nada começa de cima pra baixo... (Alguma construção segura se eleva sem base sólida? Onde nascem os arranha-céus? No espaço?)
Mas até mesmo a submissão pode ser assumida à força, sob o ar sufocante da rebeldia, da revolta. Aqui no Brasil quase sempre o sinal da inconformação é direcionado não ao ponto de frustração oriundo, mas sim, covardemente, ao imediatamente mais abaixo de nós. O carro sobre a motocicleta. A motocicleta sobre a calçada. O armamento sobre o desarmado. (Veja a ação das forças de segurança pública como agem... Há pouco também estavam reclamando de seus superiores, por melhores condições de trabalho, por segurança e valorização. Frustrados, são capatazes açoitando suas consciências. E a justiça é confundida facilmente com vingança.)
Quantas vezes agimos assim. Atualmente é muito comum nos chegar aos ouvidos casos de cidadãos que, sem conseguirem atingir suas consciências por um ato repreensivo, revidam justamente sobre aquele que lhes despertou a razão. Por orgulho, é mais fácil apagar quem nos desperta, em nome da nossa imagem do ser que, se não consegue ser perfeito, não pode, em hipótese alguma, parecer fraco.
Na nossa cabeça, vence a "disputa" quem grita mais alto, que termina a discussão, quem tem mais poder, o mais violento.


Um manifesto é válido, desde que cobrado no momento certo, por quem pode cobrar. O que muito pouco se vê ainda é a massa sendo evidenciada por cumprir seu dever. Então como cobrar direitos?
A violência de cima é tão injustificável quanto o vandalismo de baixo. E vice-versa. A coisa está tão errada que o rumo foi perdido de lado a lado. Faz tempo que -pela própria massa- o errado é dado como certo. Que o certo é babaquice. Que falar de moral é ser hipócrita. Que citar ética é ser otário. Que falar do bem é ser iludido. Ninguém mais pode querer melhorar, mudar o modo de pensar, de agir, de rever os conceitos. Tudo depende das circunstâncias, das conveniências... Marcha da maconha, marcha das vadias, dia do orgulho gay... Estamos perdendo grandes oportunidades, jogando fora ideais nobres, em nome dos excessos, ao preço de uma liberdade egoísta, sem respeito ao próximo.
Direitos, direitos, direitos... Onde ficam os nossos deveres?

Fácil incendiar o povo como capim seco, em campo aberto. Mais fácil ainda nos fazerem pensar que tomamos partido por conta própria. Ainda mais com a internet construindo heróis e subcelebridades a torto e a direito. Celulares, câmeras digitais e tablets registrando tudo, em tempo real... "Quem quiser aparecer, a hora é agora!"
Falando sério: que gritemos, que defendamos, que exijamos... mas que jamais percamos a razão. Muito menos pela vaidade!
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Estou assistindo aqui o manifesto pacífico, no Centro do Rio, na Candelária. A bandeira nacional aberta, a massa unida como nas arquibancadas de um clássico nos velhos tempos do Maraca... De longe, é até emocionante. Mas não vou além, não me iludo por tão pouco. Daqui há pouco começa a bagunça e toda a razão se evapora. E lá perdemos outra chance, de novo. Incrível nossa capacidade de comprar o que não presta, de nos contaminarmos com o que nos leva pro fundo.
Quero muito acreditar que estamos mudando mesmo. Ou melhor, que estamos querendo mudar, com a pulga finalmente nos incomodando a orelha. Mas assim, de uma hora pra outra, da noite pro dia, da água pro vinho, sem apresentarmos antes pequeno grau de humanismo, com tanta baderna, crueldade, covardia, violência... fica difícil. A natureza não dá saltos.
Sou o cara mais otimista que conheço. Tão otimista que depois de tantas merdas já feitas, ainda acredito em mim. Mas francamente, ilusão não é mais comigo. Depois que vi funcionário público barganhando (com gosto!) folga pra fazer presença em manifesto por conta dos royalties perdidos pelo governo do Estado, entendi que tudo é por conveniência.
E quando o Estado nos suprir tudo o que exigimos por direito? Saberemos lidar com a excelência?  Só de imaginar a luz, já ficamos cegos. Logo, ela tão cedo não poderá se dar. É bom não esquecer que mesmo que algum dia esteja tudo nos conformes, o amor e o respeito ao próximo continuarão sendo responsabilidades permanentes de cada um.
Não se pode bradar consciência ética, moral, respeito e discernimento da boca pra fora, sem termos intimidade mínima com essas virtudes.
...
E como diz Gabriel, O Pensador:

Pra quem não conhece, a frase escrita na faixa da primeira foto do post -Amanhã vai ser outro dia!- é da maravilhosa "Apesar de Você", canção do grandioso Chico Buarque. Ouça-a, assista o vídeo, entre no clima da época, e compreenda o que é manifesto por justiça, com ética.

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