13 de mai de 2013

Quando é demais pra mim

..."You will find me"...

Os dias têm sido daqueles. "Novidade"...
Ando seguindo, correndo, mecanicamente, fazendo as coisas sem olhar muito pro lado. E entre um e outro momento, detalhe, levanto a cabeça, olho pra fora da janela e penso em alguém. O sol lá fora tem ajudado um pouco, é fato, mas não dá pra fugir do fato de que esse alguém tem sido um sol e tanto aqui dentro também.
Por outro lado, não aplaca a exaustão que venho sentindo. Mas isso não me preocupa. O que me incomodaria seria se eu estivesse sentindo falta de disposição, o que não é o caso. Descobri recentemente que indisposição e cansaço são coisas bem distintas, graças a Deus. E como isso faz diferença!
Mas onde o filósofo de meia tigela queria chegar mesmo? Sim, de que não resisti. E quando deu umas sete da noite, resolvi "esticar um pouco a coluna". (Coisas de quem anda beirando a entrada na casa dos primeiros "entas", meus amigos. Sim, daqui uns anos mais, quarenta.)
Apaguei. Quando acordei, parecia renovado. Incrível como o sono é um recurso reparador.
Tudo isso pra justificar o fato de -sem ter o que fazer- ter assistido "Ela é demais pra mim", e foi inevitável não me encontrar no personagem de Jay Baruchel. Foi bom. Eu ri um bocado. Não apenas com as baboseiras da estória -uma comédia romântica bem light-, como das situações que cercam o fato de um cara sem atrativos aparentes se relacionar com uma mulher que é o mais absoluto oposto, em todos os sentidos possíveis. A diferença é que não tenho mais idade pra basear minhas expectativas no que os amigos dizem, por mais aparentemente bem sucedidos que sejam. (Graças a Deus.)
Já entendi que as coisas da vida vão muito além da vã compreensão dos imediatistas "bem resolvidos". Mas o pobre Kirk não. Também, com uma autoestima tão baixa e conformada, ele conseguia quase ser um sujeito bem resolvido com suas limitações -se é que isso é possível sem beirar o pessimismo. E aí, o cara vai e, por obra do "acaso", contrariando todas as leis da física -e da química-, encontra uma mulher "perfeita" que se interessa por ele.
...
Mas não estou aqui pra fazer resenha do filme. Apenas uma comparação. Porquê por mais sabedor profundo das minhas realidades, por mais que eu tente segurar as rédeas do meu coração pra não descer a ladeira da ilusão... a autoestima raramente faz parte do meu arsenal de auto convencimento. Muito pelo contrário, prefiro fazer uso de outras realidades. E por fim, por mais cheio de teorias fechadas que eu seja, a prática é sempre cheia de surpresas.
Então é realmente meio estranho quando coisas fora do comum acontecem nesse sentido. Principalmente se levar em consideração a teoria do acaso: de que na vida acontece tudo por obra dos imprevistos, sem um planejamento mínimo dos estrategistas da vida maior, que visa as necessidade de ambos os lados envolvidos na caminhada comum e não apenas interesses fúteis, superficiais. Então, pode parecer uma aberração da natureza mesmo. Fora da lógica.
E um detalhe que faz parte do contexto é o modo como as pessoas passam a te observar. Em muito, te subestimaram,  renegaram, rejeitaram. Uns por falta de interesse mesmo -o que é normal-, outros por falta de sensibilidade, de personalidade, quando dão muito mais valor ao que os outros dizem do que ao que sentem. E aí o sujeito aparece com alguém que teoricamente supera as maiores expectativas que alguém pode ter sobre ele, e tudo muda. Ganha um holofote apenas pelo fato de se apresentar com uma pessoa "relevante" no conceito de valor das superficialidades. Quem olhava de um jeito, passa a olhar de outro. Quem sequer olhava, passa a lhe dar valor desmedido. E se o sujeito não for pé no chão, embarca nessa. E todo mundo sabe que quem tudo quer, nada tem. Então é olhar pra frente e deixar de lado tudo o que nunca quis fazer parte dos planos antes do tal holofote dar luz às suas "qualidades". E assim como os inferiorizados (em qualquer seguimento humano) não podem/devem se relacionar com os superiorizados (e vice e versa), quando acontece, todo mundo olha daquele jeito que a gente bem sabe.
Do outro lado, existe também o preconceito sobre a beleza de que uma pessoa muito atraente, muito bonita, não pode ser gente fina, não pode ter profundidade, não pode ser inteligente, sensível e assim, não pode, em sã consciência, se envolver com alguém inferior aos padrões dos interesses aparentes. A elevam a um pedestal de soberba que ela mesma não construiu, que não se colocou. Tenho ouvido muito isso ultimamente: se aquela pessoa bonita de nascença obteve sucesso, "sempre foi pela beleza, foi pelas facilidades que a vida lhe deu de bandeja", nunca pelo esforço, pelo talento.
Eu mesmo, em muitas oportunidades, tenho esse péssimo hábito -aliás, toda pessoa de índole questionável tem. Já cheguei inclusive ao ponto de me sentir aliviado diante do choro de uma pessoa, a qual me passava a imagem de tudo possuir de bom, de tudo poder, de a tudo poder acessar. Só quando a mesma me confessou suas inseguranças, é que a enxerguei como humana... O que é um absurdo -principalmente se considerar que essa pessoa nunca fez nada pra ser encarada de outro modo. Ela apenas vivia a sua vida e aparentemente se saía bem nos resultados.
...
Mas então, quando algo é "demais pra mim", sempre rolam esses questionamentos também. "O que viu em mim? Como me descobriu se eu estava quieto, na minha?" Sempre essa sensação de que alguma coisa na história está desconexa e que por isso mesmo, mais do que em qualquer situação, precisa de explicações numerosas pra me convencer e me tranquilizar. Nem sempre. Mas vai entender isso assim, nessa simplicidade... É aquela velha história da desconfiança do santo sobre a esmola demasiada.
O erro está justamente aí, num valor que o mundo nos oferece como parâmetro para medir o que está além dessas medições. E aí, o pobre do infeliz que não tem nada pra ostentar, não pode jamais despertar o interesse de alguém que esteja no outro lado da curva da vida, num momento bom, "por cima", etc.
Há um fato que raramente contamos, que é que por mais que estejamos na nossa vidinha mais ou menos, sempre há alguém observando nossos passos, nossos detalhes, nossas entrelinhas. E no fim do filme, é exatamente como a música do James Morrison, que diz: que não estou correndo, não estou me escondendo, mas se alguém cavar um pouco mais, vai me encontrar. Que assim seja.

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