17 de dez de 2011

Nos vencemos... juntos


Passei um dia com meu velho pai. Perdido, num sítio lá no meio de Nova Iguaçu, uns 60km daqui de casa.
Colhemos manga, coco verde, banana, jambo, acerola, caju... ceifamos o matagal, consertamos a cerca, "visitamos" as covas de aipim, as touceiras de cana, os pés de jaca, de tangerina e de limão galego. Mas o melhor mesmo aconteceu depois:  passamos horas conversando sobre a vida, nossas dores, nossos aprendizados.
Isso pode parecer besteira pra muita gente, mas pra nós, isso é uma puta duma fantástica e magistral vitória, tamanho são os obstáculos ultrapassados quando isso nos acontece. Sabemos nós dois, mais que qualquer um, o quanto somos diferentes, o quanto viemos aprender um com o outro e aparar nossas arestas nessa vida. Somos extremamente orgulhosos, na parte mais negativa do sentido. E por conta dessa diferença, já nos desrespeitamos muito mesmo, vergonhosamente. Quando eu cedia, ele invadia, quando ele cobrava, eu devia...
E por muito tempo fomos levando nossa relação assim, de maneira insuportável, sem qualquer sinal de salvação entre nós. Sofremos demais... e por nada. Porque com o tempo, todo aquele orgulho desgastante pra provar quem estava certo ou errado, provou-se inútil. Perto das nossas necessidades de pai e filho, de força e fragilidade, de capacidade e dúvida, tudo isso perde o valor. Ele tem o que eu preciso, e vice e versa. O amor é sempre muito maior que qualquer rixa imatura, que qualquer melindre babaca. Basta a gente querer que assim seja. E o melhor é que nós queremos isso, ele e eu.
Só não supera diferenças, rancores e mágoas quem não quer. Porque ainda há prazer em ruminá-las, em cultivá-las até que se tornem úlceras, para que possamos culpar o outro interinamente, por uma (ir)responsabilidade conjunta. Quando queremos, atingimos a incondicionalidade para amar, como fazem praticamente todas as mães com seus amados filhos. Porque de mágico, isso nada tem. É só o amor agindo. Por mais que seja explicável essa maior capacidade da maternidade -pela maior aptidão feminina  junto à emoção-, o amor está ao alcance de todos e assim, todos podemos desenvolvê-lo ao máximo.
Se fosse há uns dez anos atrás, eu jamais poderia imaginar passar um dia assim com meu velho. Mas o tempo nos fez cicatrizar as feridas, a distância nos fez reconsiderar necessidades e a razão nos livrou (parcialmente) da cegueira do orgulho. A solidão em que ele vive hoje o fez repensar muita coisa. As minhas quedas -maiores que as dele-, me fizeram parar de julgá-lo e de condená-lo. Pagamos os preços devidos.
Claro que ainda erramos! Ainda somos muito teimosos e duros na queda... Mas já percebemos que o desgaste que temos ao tentar fazer prevalecer nossas diferenças, não vale nada. Melhor silenciar, deixar pra lá.
Então, imagine! Conversamos! Isto é: falamos e ouvimos um ao outro, com atenção e respeito. Lembro do quanto eu ficava irritado quando ele começava a falar da religião dele, demonstrava seus preconceitos, seu fanatismo... Hoje eu tive um prazer indescritível ao perceber que nada daquilo me incomodava. Ainda me arrisquei no meio, sem qualquer intenção de polemizar e chocar. (Eu não me perdoaria por estragar aquele momento tão esperado, tão nosso.)
Percebi também que a discussão respeitosa não significou concordância absoluta, comum. Mas e daí a concordância se o que nos envolvia era a admiração, o carinho e o respeito? Desatamos os nós e firmamos os laços.
E a graça da descoberta foi justamente perceber que não é preciso utilizar a violência para mostrar que não se concorda com uma ideia. O silêncio do respeito sincero pode sim, definir a paz, além de revelar ambos os lados como vencedores.
Deixamos tudo aquilo, aquela dor pra trás. Passou.
Quem diria que algum dia, eu voltaria a dizer que amo meu pai com tanta força...
A sensação é que, se algum de nós partisse hoje, só nos lamentaríamos de saudade. Pois por não nos termos dito o que sempre desejamos dizer de bom, não haveria lamento algum. Mais que palavras, nos demonstramos amor sincero, conquistado com garra. E tivemos a certeza de que não o perderíamos mais de vista.
Como é bom (re)aprender a amar de verdade, não importando por quais condições isso se dê. Se de repente ficássemos esperando um modo mais conveniente para um ou para outro amar, essa dia absolutamente jamais teria acontecido.

2 comentários:

  1. Foi um bonito resgate, não, Flávio?

    Um beijo, moço querido.

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  2. Um alívio, Luna.
    Um grande alívio.
    Beijão, querida!

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