26 de set de 2011

Um instante por um grão

E já no meio do expediente, depois de uma forte lembrança, saudade insuportável lhe sufocou o peito e desesperou o coração. Sentia até mesmo o perfume dela a lhe cercar na sala.
Levantou-se meio desnorteado, procurando ar, e dirigiu-se até a janela, quando de súbito, lembrou-se de uma passagem que ela muito lia para confortar a ambos, às vésperas de sua partida:

(...)"Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este monte: passa daqui para acolá, e ele passaria, e nada vos seria impossível"(...)
Mateus; XVII; 17:20)

...Foi o primeiro pensamento que lhe veio à tona. (E olha que era péssimo com essas coisas!...)
Sabe apenas que desejou tão ardentemente que arrepiou-se por inteiro. Foi mesmo com fervor com pediu. Tanto que não conseguiu se conter e os olhos ficaram marejados.
O resto do dia se foi, e de lá, passando pelo metrô, pelo ônibus, estava evidente sua impaciência: não queria se demorar e nem perder o foco do pensamento obsessivo: encontrá-la em casa.
"-Que seja por apenas mais uma única vez!", se conformava emocionado. E o resto todo seria uma doce consequência...
Certamente que se entregariam aos beijos e abraços delicados, às confissões de amor e de saudade, para daí se sentarem à mesa, frente à frente, no alívio de amparar-lhe as mãos suaves e ouvi-la contar sobre seu dia sempre tão cheio. A parte que lhe cabia era apenas essa mesma: admirar em solene silêncio, com total atenção, a doçura daquela alma que jamais pensou ser possível encontrar. Tudo perfeito como sempre!
Subiu depressa pelas escadas, ignorando o velho elevador, sempre com o coração descompassado de ansiedade. Ia já no meio do caminho separando a chave certa para não perder tempo.
Abriu a porta de forma afobada e deixou-a escancarada enquanto seguia rumo ao quarto. A casa continuava impecável, apesar da leve penumbra. Era assim mesmo que ela deixava aconchegante aquele lar.
No corredor, o perfume mais evidente era sinal comprovado da sua presença no quarto. "-Ela está na escrivaninha, entre seus livros, seus estudos, suas paixões..." -pensou e sorriu-se esperançoso.
Abriu o quarto e numa rápida passagem com os olhos, a constatação: a última presença naquele quarto havia sido a sua mesmo, de manhã, ao partir para o trabalho. Ela não estava por lá. Continuava só, ainda cercado de lembranças e pelo perfume. Perturbou-se e só encontrou alguma consolação dentro do guarda-roupa, abraçando o único vestido que fez questão de manter. Parecia ainda sentir o calor da amada naquela peça. Provavelmente era fruto da sua triste saudade.
Percebia o silêncio assustador da solidão, os porta-retratos repletos de recordações, a tarde que se ia mais uma vez e a noite que chegava pra lhe render. Sentia-a viva, mas apenas dentro de si, e por isso mesmo intocável.
Talvez não tivesse tido tanta fé quanto necessário, e sonhava -num outro fim de tarde desses- conseguir um pequenino grão qualquer que fosse...
...
Confiar não é apenas esperar testemunhar um milagre, mas sim levar-se tranquilo, mesmo percebendo que o tal milagre talvez nunca se dê.

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