17 de set de 2010

Quando sonhar é o que resta


Sozinha, pequena, magrinha
Negrinha como a noite que a cerca
Sentada no banco da praça
A balançar os pés no ar, descalços
As roupinhas surradas, a testa suada
Os cabelos amarrados sem cuidado algum
O estômgado vazio
Sem nem mesmo ter pra onde ir, que dirá voltar
Vive entre os poucos companheiros de iguais desventuras
Tantos a ignoram
Alguns sentem pena
Mas quase ninguém tem compaixão
É claro: mora na rua

Estava ali, à folhear o velho álbum de figurinhas
Que provavelmente encontrou no lixo
Certo que quase sem brilho
Mas ainda assim, iluminam os olhos da criança
Olhos que vão longe...
E que trazem um doce sorriso perdido
O que sonha? Como ainda sonha?
É criança que não escolhe hora pra sonhar
E sorri porquê sorrir é de graça e engana a fome
E por instantes afasta toda a dor que lhe é parceira de todo momento
Em seus sonhos: um rei e uma rainha como pais, lindos vestidos, uma bela cama, a mesa farta, bonecas perfumadas... o amor que não tem
Tudo tão desejado e perfeito
Que a dura realidade quase se esvai diante de tanta indiferença da vida
Pareceu até ser feliz...

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