12 de jun de 2010

Há Dores e Há Dores

Encontrei-o numa das vezes em que fui ao Hospital. Pelo que contavam, ele meio que vivia por lá. Sem família, sem amigos de fora, sem endereço... Passeava com dificuldade pelos corredores, cumprimentando à todos e dizia sempre: 'Que Deus te abençoe! Ele -Deus- é muito bom!'
Pra uns, era louco, pra outros, um ser diferenciado. Vou explicar porquê...
Faziam dez anos em que morava naquele hospital público. Fora encontrado semi-morto, envenenado... talvez pelos próprios parentes. A lesão foi tão grave que ficou cego, perdeu parte da audição, contraiu várias infecções por conta disso...
Sempre que estava se recuperando de um mal, aparecia algum outro...
Andava com uma bengala até que uma nova moléstia abateu seu andar. A cadeira de rodas era a nova companheira de jornada.
A pele avermelhada, coberta de pequenas chagas. Por fim, após fraturas ósseas banais, exames revelaram câncer nos ossos... Era impressionante!
E sempre a dizer que 'a vida era boa', que 'era feliz', que 'Deus era bom'... ninguém compreendia o que acontecia para que o sujeito continuasse de bem com a vida. Só a insanidade para explicar de forma mais simples.
Eu -como curioso que sou, um dia respondi ao seu 'bom dia' mais efusivamente que o normal. Ele parece até que percebeu meus questionamentos sobre sua postura sempre altiva:
-Olá, meu querido! Que belo dia, não? Não enxergo mais com os olhos, mas ainda sinto o calor do Sol na pele que me resta. Que Deus me permite em Sua misericórdia... e a vibração diferenciada das pessoas... Um dia como esse, dá um retorno sensível na reação das pessoas... Deus é muito bom...
Ainda tímido, o perguntei:
-O senhor é bastante otimista, não? Digo, bem 'pra frente'...
Ele, efusivo:
-Só tenho a agradecer por tudo o que tenho... sou feliz por dentro!
Feliz daquele que não sente dor... Deus me é muito bom...
Fiquei confuso:
-O senhor não sente dor?!
E lá veio ele novamente:
-Que é a dor do corpo diante da fé que tenho que tudo vai melhorar? Nada. Sinto-me como que a pagar dívidas... Dívidas de ordem moral. Nem eu sei bem o que são, mas se passo por tudo isso hoje, certamente não é à toa, meu querido...
Aquela nova resposta me fez mergulhar mais naquela conversa intrigante:
-... diz de 'outra vida'?
O homem retornou:
-Não sei... talvez seja por isso que tem gente que me ache doido...-e riu-se.
O certo é que sinto-me assim: cada vez que um obstáculo me aparece sob a forma de dor ou limitação ao corpo, alivio-me por ser uma dívida à menos.
Mil vezes ter sido abandonado, vilipendiado e envenenado. Ficar cego, ter a pele coberta de chagas, perder a audição, não mais andar... Ter de me submeter à tratamentos complicados que invariavelmente vão apenas prolongar um pouco mais essas dificuldades... Mil vezes tudo isso, à ter toda saúde do mundo e viver preso aos erros da consciência. Tem noção disso?
Tive dificuldade de entender aquilo, visto que ainda sou muito apegado ao corpo e seus vícios. Depender dos outros? Perder minha privacidade? Meu pudor? Sentir dor? Ficar cego? Paralítico? Isso seria terrível...
Por outro lado, eu estava passando por um momento muito ruim, que 'coincidentemente' não me permitia caminhar de cabeça erguida por aí, que não me deixava mais julgar soberbamente os atos alheios semelhantes como sempre fiz. Sim, a minha máscara havia caído recentemente... Eu sentia remorsos terríveis, me encontava numa angústia muito grande, justamente por conta da minha consciência. Cada lembrança da situação me pesava muito na alma. Era uma sombra que me perseguia e me sufocava incansavelmente. Naquele momento, eu não via saídas... era só esperar o tempo agir. Só eu sabia realmente o que me acometia. Os pesadelos, as lágrimas vertidas pelo coração, a depressão sutil que me tomava as forças. Era duro...
Mas aquele homem me despertou para as nossas diferenças. Ao mesmo tempo em que ele passava por aquele turbilhão de obstáculos, considerava-os apenas como meros degraus.
Enquanto que eu, recentemente no meio de uma queda à que eu mesmo me submeti, clamava auxílio, amparo, apoio, reconhecimento... imediato. Tudo porquê eu estava arrependido, porquê eu havia reconhecido meus erros... No fundo, acredito que se não fosse desmascarado por terceiros, ainda estaria posando de bom moço e cometendo atrocidades cada vez maiores.
Me percebendo reflexivo, o tal homem percebeu que havia me acendido uma luz de alerta sem que tivesse qualquer intenção disso...
Despediu-se:
-Bem meu querido... preciso voltar para o meu leito. Estou cansado... -disse sorrindo.
E continuou:
-Sempre é tempo de despertar. E Deus dá a todos nós, o direito de recomeçar todas as manhãs... Recomeçar é só o primeiro passo, como reconhecer nossas dívidas. Mas é preciso saldá-las... Tudo o que fazemos pode virar uma bomba na vida de outra pessoa: palavras, sentimentos, excessos, verdades, mentiras... Mas só com o tempo é que a gente vai entendendo isso, meu querido. Mas é melhor tentar começar a entender o quanto antes, pra não acumular novas dívidas, machucar mais, magoar mais... Não sei o que você está pensando ou passando... e nem é da minha conta saber, mas o que eu posso te dizer é isso: a dor física é localizada, a dor moral é generalizada. Acredito que pelo que eu vivo hoje, é por conta de alguma besteira grande que fiz... Tenho essa sensação quase que cristalizada, apesar de não me lembrar. Sei que nessa vida não foi. Mas nada é ilógico no mundo, por mais que ainda nos pareça absurdo. Fique com Deus! E tenha um bom dia... com licença, amigo.
E foi-se sumindo vagarosamente no corredor, entre o ir e vir de outras pessoas, girando com extrema dificuldade as rodas de sua cadeira... Quanta dor física aquele homem vivia, quantas dificuldades, limitações. Mais uma vez, fiquei me atentando à todos esses detalhes tristes.
Impregnado por suas idéias, com tudo concordei... e o invejei. Sinceramente.

2 comentários:

  1. Lindo...lindo texto.

    E eu tbm sinto uma inveja ao ler tal obra: uma inveja do lirismo aqui retratado, e principalmente pela experiência que viveu.

    Obrigada por dividi-la.

    =')

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  2. Obrigado por ler, por comentar... por visitar.
    beijo.

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