17 de mar de 2010

A Beija-flor

É duro observar a cena...
Trêmula de maneira anormal,
os pensamentos desconcentrados,
a fala murmurada e confusa...
Não tem mais precisão de gestos,
depende de terceiros pra quase tudo.
Precisa pedir, precisa aceitar...
Teve de aprender a perder o pudor e a privacidade.
O rosto envelheceu diante do travar dos músculos vencidos.
Esqueceu até da sua vaidade, por mais que ela ainda exista.
Vibração constante e incontrolável das mãos, retesão generalizada...
A tv é sua janela para o mundo...
É quando ainda consegue rir um pouco da vida...
Na hora possível, se medica...
E quando o remédio faz o efeito, algo nela explode...
Parece querer decolar, ávida.
Quase que voa atrapalhada,
como pássaro que se desacostuma com a liberdade, com o raro bater das asas...
E tenta correr e aproveitar o tempo limitado que lhe permite agir, ser e sentir.
Que lhe deixa sonhar em voltar a ser independente... como já foi um dia.
É beija-flor ansioso por cada flor...
Valorizando como nunca, cada parco instante de tremores diminuídos... mas ainda existentes.
E persistentes...
Mesmo assim, cansa e adormece...
No meio da noite, tudo volta...
A rotina é sentar na escuridão do quarto e esperar, solitária, um novo instante de liberdade para agora voltar a descansar...
Novamente se medica... e espera.
Por mais que alguém se inteire da situação, a luta é só dela...
O que ela pensa nessas horas?
A luta segue, enquanto todos dormem alheios...
E tudo recomeça... sempre a mesma rotina.
Parece realmente que já esperava por essa prova... sem dúvida.
Mas ela ainda é frágil... e por vezes, sente o desespero da situação.
É dura a prova.
Chora, lamenta, questiona... e respira.
Na sua solidão, a guerreira prossegue.
Por vezes, um tanto mais triste...
Mas sempre lutando pra se equilibrar... e decolar novamente ao sabor de alguma brisa que apareça...

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