4 de jan de 2010

Era uma vez...

Num planeta distante, uma das atitudes mais bizarras que alguém poderia tomar era arrancar uma flor. Sério. Lá, uma flor era um tesouro extremamente valioso. Era bem mais que isso: era uma virtude conquistada na própria superação do ser, era um filho ou algo igualmente importante. E cada um possuia as suas próprias flores.
Parece besteira? Agora, compare arrancar uma flor com algo extremamente desagradável, decepcionante, traumatizante e criminoso? Mais grave que espetar agulhas numa criança ou arremessá-la da janela de um prédio. Mais que incendiar mendigos, que agredir um idoso ou desviar dinheiro público. Sim. Lá, arrancar uma flor era pior que tudo isso junto e mais alguma coisa.
E um sujeito, num dia, sem mais nem menos, desejou arrancar a flor do jardim de uma pessoa extremamente importante para ele: um grande amigo. Era mais que isso: era o amigo de todas as horas. O amigo que o havia confiado a guarda de seu vistoso jardim por anos à fio.
Por obra divina, ficou apenas no desejo, pois o infeliz foi descoberto logo de cara. Não importa se não arrancou a flor. Não importa se havia despertado à tempo de não desejar mais fazê-lo -obviamente que isso pioraria ainda mais a situação do cidadão. Ele já havia quebrado a confiança daquele grande amigo, pois teve a intenção. Trocou aquela união construída durante longos anos, com tijolos de sorrisos e lágrimas, por uma situação absurda e inaceitável. Aquele amigo que o colocara dentro de casa, que lhe dividiu o cuidado de outras tantas flores...
Ao ser descoberto, mais que vergonha, sentiu-se decepcionado consigo mesmo. Não entendia como chegara a esse ponto. Lembrou-se de que um dia quis se afastar do amigo, ao perceber o que acontecia. Ainda questionou-se sobre a possibilidade de contar-lhe sobre a bizarrice obscura e criminosa, mas a situação era tão desagradável que imaginou que certamente essa não seria uma boa alternativa. Afinal, que ser racional -mesmo que sendo o seu melhor amigo- entenderia uma idéia tão absurda? 'Impossível', pensou. Estava decidido então: iria embora. De um jeito ou de outro.
Mas o amigo, era mais que amigo. Era um grande irmão. Mesmo sem entender o que acontecia, percebeu seu afastamento. Trouxe-lhe um álbum de fotos e lhe recordou tudo o que haviam vivido até então. E o doente, diante daquilo que via, não conseguiu ser firme... Cedeu.
Por um período curto, conviveu sob a agonia do que acontecia. Não possuia explicações e cada dia, mais cegamente agia. Era a impulsividade em pessoa. Não tinha mais medidas. Era como se tivesse uma voz no ouvido à lhe ditar as regras ou uma cortina nebulosa a lhe reduzir a visão do terreno ardiloso em que adentrava. O que importa mesmo é que, independente de qualquer fator externo, ele agia por suas próprias mãos. Tinha responsabilidade total por aquilo. Ninguém fica à merce do instinto sem querer. Ele se entregou injustificavelmente. Imponderável.
Até que vacilou... E tudo se expôs de uma maneira terrível. Pra piorar, tentou fugir da verdade. Se acovardou ao perceber que tudo era tão absurdo que ele jamais teria coragem de assumir o fato. Se escondeu atrás de outras flores... desmentiu, mostrou-se um falso pobre coitado, vítima da calúnia. Claro que por sentir tudo ruir. Por saber que não teria mais volta.
Quem acreditaria nele depois disso? Que já estava se despedindo da sua vontade de arrancar flores à torto e à direito? Que já havia procurado ajuda pra se livrar daquele incômodo? Que tentou se retirar de cena para procurar entender o que lhe ocorria?
Nada mais lhe cabia então... Nem deixar-se rolar as lágrimas densas às madrugadas, nem fechar-se na escuridão do peito sofrido, nem enrolar-se na dor infinita que lhe corroía as lembranças de outrora...
Foi ao chão e desejou um dia ir embora daquele planeta. Sabia que não haveria qualquer oportunidade de reaver o outro tesouro que havia perdido: a confiança. Essa, se quebrou de forma definitiva. Ele sabia disso...
Ficou ali, deitado no chão. Fazia chuva, fazia sol, o tempo passava, e o único lugar em que ele se sentia melhor era no chão. Não adiantava saber que assumia seu erro diariamente. Que se condenava merecidamente. Nada traria de volta a responsabilidade de cuidar das flores alheias, a confiança e a amizade que perdera... Perdera tudo. Perdera um mundo.
Restava esperar o tempo passar e nada mais.
Pois bem, cada um sabe do valor das suas flores... E na verdade, nem era um planeta tão distante assim...

5 comentários:

  1. Atire a primeira pedra quem nunca roubou uma flor, ou nunca fez menção de roubar...
    Vc é bom em falar da alma, belo texto!
    Bjo

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  2. Não consegui ler o texto, parei na segunda linha, comecei a pensar nas flores que já plantei e na relação de cumplicidade que tenho com as plantas. E chorei. Comentário inútil, eu sei, só que quis escrevê-lo mesmo assim. Não precisa aceitá-lo, foi apenas um momento de catarse.

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  3. nenhum comentário vindo do coração é inútil.
    obrigado mais uma vez.

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  4. Esse texto, a princípio, me lembrou o filme da Disney ' A Bela e a Fera', depois, claro, remeteu a lembrança (doce) do "O pequeno príncipe’ porém, friamente, deixei a lembrança emocional , e fui, pouco a pouco ao cerne da questão, e isso me trouxe um daqueles espantos bons que, de tempos em tempos presenciamos: como é possível alguém escrever sobre algo que já vivi?

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  5. maldita curiosidade que me assolou agora...

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