9 de abr de 2013

Cotidiano de um velho gato

No supermercado, comprei um pouco de ração pro Burunga, o velho gato branco do meu não menos velho avô. Ao pagar, a menina operadora do caixa, não soube distinguir qual ração era:
-Gato?
Não resisti:
-Você que está dizendo... De qualquer forma, obrigado pelo elogio.
E ganhei um belo sorriso.
...
Burunga é um velho de guerra. Já sobreviveu à muitas enrascadas. Já ficou preso sob o telhado quente e me fez desparafusar mais de uma dúzia de telhas de amianto para tirá-lo de lá. Já inclusive comeu veneno, cuspiu sangue e sobreviveu. É uma lenda viva, uma espécie de Chuck Norris dos felinos.
Quando ainda pequeno, não resistiu ao ver duas crianças jogando peteca com penas coloridas na calçada -ainda se vê isso no subúrbio do Rio- e caçou o brinquedo crente que era um pássaro.
É um bichano temperamental. Tirando meu avô, que ele não estranha de forma alguma -nem que seja por ele pisado-, se arrepia pra todo mundo. Raridade aconteceu dia desses, em que consegui fazer um carinho bem discreto em sua cabeça. Deve ser a idade...
De personalidade forte, está mais vocacionado pra cão de guarda que para caçador de ratos. Apesar de tudo, fez amizade com o gambá que ronda as goiabeiras do quintal.
Quando está na ordem de tarefas do dia alimentá-lo, é só me aproximar e sou recebido com a peculiar estranheza de sempre. Não adianta nem o velho Relmas explicar pra ele que sou de casa. Engraçado é que assim que percebe que estou ali para matar-lhe a fome, ele, gato interesseiro que é, muda completamente: passa a quase cantar enquanto mia. É uma figura rara.
Burunga, o verdadeiro gato dessa crônica.

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