15 de nov de 2012

Até onde vai seu otimismo?


Recentemente, uma pessoa próxima, daquelas pra cima, geralmente muito otimista, entrou em desespero por ter perdido o emprego. Este, conquistado a menos de seis meses, numa empresa totalmente nova que, a princípio, trabalhava de forma adaptada e sem muita garantia de longevidade. Penso que, por saber de alguns fatos mais que aconteciam desde o princípio por lá, tudo me faria ficar precavidamente com um -ou os dois- pés atrás. E mesmo que as expectativas fossem as melhores possíveis, não dá pra viver pensando que existe alguma coisa nessa vida que mantenha o curso livre de qualquer risco de desvio. Se nem o que está sob nosso comando dá pra garantir como certo, imagine as tantas outras coisas...
Mas o negócio aqui é questionar a solidez do nosso otimismo. Porque é mole ser otimista quando se está com o vento soprando a favor. Quando se pode comprar ou mandar trazer o que não está ao nosso alcance de construir de próprio punho e esforço. Agora, quando o bicho pega, a pessoa se desespera de um jeito  que sai totalmente do prumo. Perde as estribeiras de tal forma que -me perdoem o que vou confessar- chegaria a ser quase cômico, se não fosse trágico. Não pela desgraça alheia, mas sim por observar como as palavras podem ser apenas... palavras.
Por desespero, ela sai da dieta e come tudo o que vê pela frente -e se não tivesse o que comer? boa desculpa, não?-, se esperneia como se aquela fosse a única-última-derradeira oportunidade da sua vida, e põe a família e os amigos em preocupação desnecessariamente...
Essa pessoa que conheço, é exatamente assim. Agora, decidiu que vai vender o carro para entrar num preparatório pra um garboso concurso público e enfatizou-me: "-É a última cartada"... Já sentiu o drama? ÚLTIMA cartada... Aos sei lá... trinta anos?!
Pior que ela mesma não percebe suas tantas qualidades e possibilidades que, por si só, já seriam suficientes pra uma tranquilidade segura, para a certeza de que muito em breve tudo certamente vai mudar e que outra oportunidade há de pintar. É uma pessoa que tem muitos contatos, amigos, conhecidos, é formada, educada, simpática, extrovertida, dinâmica, bonita... Enfim, tem tudo pra arrumar um emprego em dois tempos. Pra fechar, um detalhe: não houve uma única vez em que um (bom) emprego não lhe caísse no colo ao longo da vida, sem sequer precisar ameaçar correr atrás... Pelo histórico, fatos e tudo mais, não é possível que isso ainda lhe seja motivo de tamanho desespero.
Mas o mais interessante é que, quando está tudo numa boa pro seu lado, o papo de otimismo dela muda totalmente de conceito e ela começa a considerar que otimismo é não parar de crescer materialmente e que  fora isso, tudo é acomodação e conformismo. Ou seja: está precisando urgentemente de um dicionário de etimologia. Ou, de um tempo pra pensar antes de falar em otimismo.
E ai da minha pessoa se tentar agora consolá-la, visto que eu, "com trinta e tantos anos não tenho nada na vida". De fato. E então, como falar de otimismo, sendo eu alguém tão acomodado e descansado? Quer dizer, nesse caso, meu otimismo foi rebaixado à utopia mas insignificante. Realmente, não tenho nada pra mostrar ao mundo. O que tento construir todo dia é uma obra íntima tão ínfima e a passos tão pequenos que nem eu mesmo consigo identificar como movimento à mudança. Não construí família, não tenho carro e nem casa, não tenho emprego fixo... Mas é aquilo, pra muita gente, somos o que conseguimos ostentar por aí. Seja um bem material ou um mero sorriso. Não importa o histórico que ambos tenham.
De certo é que ainda assim, meu otimismo mantém um foco mais ralé. E acredito que a incoerência da ostentação é o resultado de uma personalidade instável.
...
Me considero realmente um sujeito otimista. Sempre falo e escrevo isso. E não tem nada a ver com pensamento positivo pois, como já disse também antes, sem movimento, o pensamento positivo é inútil. Não passa de pretensão.
Quantas e tantas vezes, ao tentar pretensiosamente encorajar alguém, de alguma forma, ouço um caçoar. E o pior é que nem é bem pra mim. É mais pra Deus.Tipo: "-Você não está só. Vai dar tudo certo". E ouço: "-Ih... lá vem você..."
Pessoas inteligentes, saudáveis, amadas, muitas das vezes assumidamente religiosas, fervorosas, tementes, espiritualizadas, abençoadas, etc. Não compreendo a incoerência dessa desesperança, desse desânimo, desse pessimismo. Assumo essa incapacidade.
Como ouvi de uma pessoa muita observadora noutro dia: "-As pessoas vivem a vida como se descessem uma ladeira no embalo, sem contestar nem questionar nada, pelo simples comodismo da descida: Tá acontecendo? É a vida." Por isso sofrem muitas das vezes desnecessariamente, sem saber sequer o porquê da dor, a causa dos efeitos que as afligem, o destino que se seguirá. Aí realmente complica... Nessas condições sobram apenas duas opções: acatar ou se rebelar. E ambas por incompreensão!
E o mais interessante é que na hora em que a coisa fica preta -ou a maré ruim passa- acontece assim: "-Como é que é aquela história que você disse mesmo?... É porquê aconteceu o que você falou. Como você sabia?" Um apenas percebeu o previsível e o outro o ignorou. Nada mais.
...
O meu otimismo não é uma visão iludida, milagrosa ou mistificada da vida não! Aprendi a fundamentar minha fé na razão, considerando o estudo e a reflexão do que busco, do que encontro e do que vivo todos os dias. Tanto nos bons dias quanto nos não tão bons assim. Se eu não acreditar que o mundo tem salvação, estou me condenando também, oras. E tem também o seguinte: se eu, depois de tudo o que já fiz por aí, ainda acredito em mim, por que não acreditar nos outros?
Então, já que sou um otimista consciente, aviso aos que me cercam: na minha opinião, tudo terá sempre uma saída. E desesperar-se é e será SEMPRE inútil.
Só que infelizmente, parece que ninguém está muito interessado em diminuir a própria carga de sofrimentos, em dispender energia pra domar suas instabilidades, em se dispor a estudar-se, observar-se, compreender-se... Até porquê, se tudo der certo, vão reclamar do quê?
A lamúria é o passatempo predileto dos estagnados da alma, por mais agitados e materialmente bem sucedidos que aparentem ser. É só observar.

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