15 de fev de 2012

Qual o preço da liberdade?


Dona Jurema, quando conheci, tinha noventa e dois anos. Tinha sido enfermeira num grande hospital daqui do subúrbio do Rio, e era amiga de uma conhecida. A mãe morreu quando ela tinha uns dez anos, sendo então criada por uma vizinha. Contava que seu único irmão -há algumas décadas já falecido- havia trabalhado na construção da estátua do Cristo Redentor!

Viúva desde os trinta anos, sempre lembrava do esposo -homem bem mais maduro- amável e cuidadoso. Por conta disso talvez, nunca mais desejou se amarrar a outro alguém. Só que engana-se quem pensa que o que se deu à sua vida foi fruto apenas do isolamento em que se auto-impôs por conta da viuvez precoce. Olhando-a com um pouco mais de cuidado, deixava transparecer que o que a fizera tão arredia aos que se aproximavam e desapegada aos que partiam, fazia parte de sua personalidade desde sempre. A solidão apenas serviu de estopim para que atingisse seu elevado grau de rebeldia.

Dona Jurema não suportava limites ou qualquer regra. Envelhecendo e sobrevivendo aos poucos amigos que partiam da vida, foi cada vez mais perdendo o já pouquíssimo contato social que ainda lhe restava.
Segundo Tereza, vizinha do apartamento ao lado e que a adotara "como um bebê", dizia que "Dona Jurema, absolutamente só e incapaz, havia perdido completamente o discernimento."

Não por caducar -era muito lúcida ainda-, mas por não ter há muito tempo alguém por perto a lhe dizer o que era certo e o que não era, a lhe cobrar e dividir espaços.
O resultado? Ao longo do tempo, o apartamento todo virara um banheiro só, e também um quarto e uma cozinha. Pode alguém dizer que isso se dava pela sua incapacidade enquanto muito idosa, e não deixaria de ter certa razão. Mas a vizinha-anjo nos contava da dificuldade que era lhe impor novos-velhos hábitos, como ir ao cômodo específico para fazer cada coisa devida. E o mesmo acontecia na hora de levar-lhe a sopa, o leite, o mingau, dar-lhe banho, definir toalhas dos panos de chão e de prato... Mas o mais difícil ainda era se aproximar dela e lhe fazer um carinho mínimo que fosse.

Dona Jurema durou pouco mais de um ano além, já morando num asilo para senhoras, visto que o prédio de antes não tinha elevador e seu apartamento era no quarto andar. Na época, dava raros passos devido à artrose grave nos joelhos e à falta de coordenação. Lamentava sempre a falta de um "familiar de sangue", vivo, por perto, apesar da Tereza lhe acompanhar fielmente até o fim dos dias e de modo amoroso, nobre e raro.

E pude testemunhar a dificuldade que era estar ao lado de Dona Jurema, pois inúmeras vezes fui a visitar no abrigo e ouvi suas histórias, seus lamentos e até suas desconfianças. De certo, o estado frágil do corpo nos comovia, mas a personalidade intransigente continuava marcante.
Indestrutível mesmo, só a paciência de Tereza, que certa vez, denotando toda sua gigantesca sensibilidade, disse a maior das verdades:
-A pobrezinha viveu sozinha a vida toda. Ficou bruta, coitada... Não dá pra levar nada do que ela considera pro lado pessoal... Me dói ouvir certas injúrias, mas tenho pena da minha menina...

E a gente sentia a sinceridade nas suas palavras...

Fim da história: Dona Jurema, apesar de carregar até o fim a sensação de estar sempre só, nos últimos tempos, não esteve mais fisicamente sozinha em qualquer instante desde que a vizinha lhe surgira no caminho, visto que, apesar de morar num asilo, recebia mais visitas que qualquer outra idosa do lugar. Tereza então estava praticamente todos os dias lá, e quando não podia ir, ligava preocupada. Comprou-lhe um celular e tudo. A solidão da Dona Jurema era apenas o resultado de uma escolha equivocada.
...
E quanta gente hoje eu vejo se isolando igualmente do mundo, dizendo estar buscando a liberdade, quando no fundo, apenas quer deixar livre sua rebeldia. Não falo de obrigatoriedade de estar grudado com alguém. Não é isso. Falo de quem foge do contato e do convívio social, por não gostar da ideia de qualquer tipo de  compromisso, de ter seu espaço dividido e do risco de ter algum atrito.
"-É pra evitar aborrecimentos. Mereço paz."- acobertam-se por aí...

Buscam a independência como que se buscassem um mundo só seu, com regras rígidas suas para com os outros, mas sem quase limites para si mesmos. Mundos onde tudo é possível, desde que seja conveniente.
Sozinhos, nós podemos beber todas, sermos incorretos com segurança e nos justificarmos por isso. E não percebemos que tudo isso é se embrutecer.
E não vale acreditar que, só por ter um bicho de estimação em casa, a nossa inevitável degradação humana diante do isolamento egoísta deixe de acontecer algum dia...

Finalmente, chego a seguinte conclusão:

O único que é livre de verdade é aquele que é absolutamente solitário.
Aquele que busca -geralmente sem assumir- viver isolado de tudo e de todos.
Aquele que lava as mãos friamente e que se livra das responsabilidades adquiridas em conjunto com outros.
Sempre na desculpa da independência e da conveniência em ser livre.
Livre e bruto, pois que quem foge do contato e do atrito cuidadoso, não perde as arestas, não se trabalha.
Livre, só e espinhento como um tronco perdido na aridez da vida isolada.
Qual vantagem em ser completamente livre nesse sentido?
Fazer o que bem entender?
Não seria mesmo sinal de rebeldia?
Ter a solidão para se lamentar tarde demais?
Talvez tudo isso...
Certamente, ser livre apenas pra se debater pelos limites da vida sem qualquer olhar de reprovação.
O orgulho, maquiado de liberdade, é muito conveniente.
Disfarça-se a incapacidade de acatar os limites normais da vida com a busca pela independência.
Livre...
E mesmo assim, livre do tempo que passa sem cessar, nunca ninguém o será.

5 comentários:

  1. acho que em algum momento posso me chamar de livre!

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    1. É um direito de todos, Cleber!
      Só se deve considerar se será liberdade ou libertinagem- ou seja, viver sem regras.
      Abração!

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  2. Putzzzz!!! Só pra variar, você tem razão, toda a razão. Já disse que te amo hoje?
    Abraços meu grande menino!

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    1. Ordália querida,
      você me lembrou um amigo que sempre perguntava isso... rsrsrs
      Então, amamo-nos!
      Abração!

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    2. Vendo hoje a situação de rebeldes-egoístas graves como eu, meu pai e uma tia, juntando com a experiência verídica da Dona Jurema, posso dizer que bastou pensar um pouco no assunto e escrever sobre ele...

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