3 de fev de 2011

O que o Tempo Amarelou

Abri a janela bem cedo hoje... a cidade já começando a colher os raios do astro rei...
Essa cena sempre me faz lembrar do passado, com o Sol batendo nas casas -seja nas manhãs quentes ou nas enevoadas... As cores modificadas de todas, quase que padronizadas num 'amarelo antigo'. Cores de um tempo que não volta mais e que eu nem sabia que era feliz.
A vida não é um mar de rosas. E quem pensa que nela encontrará -ou encontrou- a felicidade por meio das satisfações pueris, se descobrirá infeliz assim que despertar.
Mas nem por isso, a vida deverá ser noite infinita ou dor que não passa nunca...
Porquê eu já fui muito feliz...
Nos meus velhos tempos, os sonhos eram típicos de uma criança. Era um tempo em que minha preocupação era saber o que ganharia no Natal, o que desenharia antes do almoço ou como seria entrar pra escola.
A família, era mais completa e menos complexa. Ou aparentava essas coisas... Talvez por também não serem tão claras na minha percepção... Minhas avós ainda estavam por aqui, ao alcance do afago, minha bisavó de pele enrugada a me pegar no colo cheia de carinhos, minha tia-quase-avó me pedindo cheiro depois do banho e o velho avô que ainda visitava minha casa vez ou outra à tarde para comer bolo de fubá com manteiga. Os pais dividindo a nossa criação e dispostos a seguirem juntos sem outros interesses...
A ansiedade de esperar os primos nas férias e no Natal para dormirem lá em casa, espalhados pelo chão. Tudo era aventura, tudo era satisfação...
Me lembro que várias vezes pensava se os morros não seriam dinossauros adormecidos, cobertos de terra e de verde. Quanta fantasia!
Mais que assistir à televisão, a graça era sonhar que dentro do rádio gigantesco havia um homem deitado, falando de lá de dentro, fazendo anúncio do Café Capital...
As janelas fechadas, e lá fora, através da transparência do vidro, as tais casas amareladas pelo Sol.
Os tacos encerados da sala, meus irmãos pequenos dando seus primeiros passos me tendo como testemunha e uma vida pela frente que parecia perfeita, livre de vicissitudes...
Tempo que quando a gente gostava, bastava olhar e sorrir pra se confessar...
Nem mesmo quando a noite invadia o dia e a brisa invadia a sala na hora do jantar, a alegria acabava... lá estava eu: sentado no chão, comendo na mesinha de centro, um bife com arroz e caldinho acebolado...
Quantos sonhos simples e suficientes...
Quanta felicidade que não volta mais.
Felicidade quase plena, nas limitações de uma criança.
Mas o futuro vai se tornando presente, sem trégua alguma. E apesar de sorrateiro na chegada, torna-se turbulento enquanto avança. E nem as festas e as gritarias típicas da infância resistem a ele... Tudo vai se silenciando de um lado e dando vozes de outro.
Tenho certeza de que se tivesse noção exata da qualidade daqueles momentos, sem dúvida não teria me desvirtuado tanto depois, ido tão fundo nos meus erros... Mas nada ainda nos pode ser perfeito. E além do mais, foi necessário testar minhas forças... E foi aí mesmo que pequei.
Eu era feliz na minha alienação infantil.
Sem o orgulho atual que me empurra pra longe do que deveria buscar. Sem essa vaidade que me assola e que faz quase essencial, pra ser reconhecido pelo que faço. Sem os melindres que me tornam tão hipócrita e acovardado.
Naquele tempo amarelo, ainda não havia destruído a vida de ninguém...
E nem imaginava o rumo que daria à minha vida.
E o pior: praticamente todas as coisas, foram escolhas minhas. E até mesmo as impostas também me foram avisadas.
Escolhas infelizes, diga-se de passagem...
Ao contrário do que dizem, se tivesse que recomeçar, faria tudo de outro jeito. Abusei do direito de errar e de me enganar. Me entreguei aos instintos, me ceguei por conta e risco próprio, me fodi todo.
Mas não foi só isso... Desgracei justamente quem não tinha nada com isso e que certamente ainda veio tentar me tirar do lodo.
Espero por uma próxima vez... Nem que seja em outra vida.
Enquanto isso, vou seguir com o freio de mão puxado... Precaução pra não plantar mais dor por aí...
Realmente a vida não é um mar de rosas, e mesmo assim não será sinônimo de um deserto de bons momentos.
Isso é a escolha de cada um...

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