14 de nov de 2011

Preparado para a dor


"O velho me olhou daquele jeito e repetiu:
-É, Seu Flávio... estou te dando trabalho... Que sacrifício, heim?

Eu o olhei, sorrindo com os olhos, convicto do que sentia.
Disparei:
-Sacrifício?! Sinceramente não... O que há pra mim é um prazer que eu desconhecia até chegar aqui. Eu olho pra você e vejo uma porta, velho. Uma luz que me mostra que ainda tenho saída, que ainda tenho salvação. Mesmo depois de tudo o que já fiz por aí... Isso eu devo a você. Tudo o que eu faço e que lhe parece um favor ou compaixão, na verdade é um agradecimento.

E concluí apenas em pensamento:
-Ah, se o senhor soubesse dos meus passos pelas sombras...

O velho riu sem muito entender, mas ao mesmo tempo entendendo alguma coisa. Afinal, ele era como eu: cheio de equívocos pela estrada da vida, se achando talvez indigno de qualquer atenção naquele momento."

Sabe, olho pra ele e vejo que a vida está o curvando. O tempo consome o corpo, o vence dia a dia, como todos nós um dia seremos vencidos nesse sentido, mesmo que nos resguardemos dos excessos, mesmo que estendamos ao máximo seus limites energéticos.
O brilho em seus olhos está cedendo lugar à uma vibração que não sei identificar bem. Vivo à espera de um adeus e aproveito cada reencontro nosso como se fosse o último, mesmo acreditando, convencido pela razão e pelo coração, que essas coisas não sejam pra sempre.
Isso realmente me conforta, me tranquiliza.
Até lá, me preparo cada dia pra esse momento. Não vejo nada disso como algo traumatizante ou doentio -como muitos vêem e confundem 'preparar-se' com 'sofrer antecipadamente': eu encaro antecipadamente as dores inevitáveis para me fortalecer e estar preparado quando elas finalmente chegarem.
Sempre deu certo. E nem por isso eu sofro mais ou, totalmente o oposto, vou ficando impassível.

10 comentários:

  1. Não sei lidar, Flávio, não me conformo, sofro antes, durante e depois.

    Te admiro pela serenidade, imagino que não deva ter sido fácil conquistá-la.

    Um beijo.

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  2. Luna, mas dá pra conquistar sim! E nem é tão difícil assim...
    Tem é que querer.
    A dor sempre vai existir, mas o jeito de sofrer pode mudar. Tudo pode ficar mais sadio de sentir. Até a dor.
    Beijão!

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  3. "Sabe, olho pra ele e vejo que a vida está o curvando. O tempo consome o corpo, o vence dia a dia, como todos nós um dia seremos vencidos nesse sentido, mesmo que nos resguardemos dos excessos, mesmo que estendamos ao máximo seus limites energéticos."

    Eu olho e não vejo que tenho tempo, sofro demais por ter 21 anos e ainda não consegui nada do que eu gostaria... estou forçando , dando meu máximo e o tempo consome meu corpo, e de jeito nenhum consigo ficar tranquila. Mas eu tento não sofrer, agora se consigo ou não, isso é outra história. bjs

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  4. Bruna, você não acha que o que você sofre não é muito mais por conta de uma imposição do que a sociedade nos mostra como padrão?
    Todo mundo tem que vencer na vida, tem que ter um bom emprego, tem que ser formado, tem que ser bem casado... tantas coisas.
    E se estamos fora do ritmo dessas coisas todas, sofremos. Nos sentimos quase marginalizados.
    Vai com calma, baby. Vai com calma.
    Eu nunca imaginei que, aos 34 anos, estaria levando a vida que levo, sem muita perspectiva -aos olhos do mundo- mas com a minha consciência relativamente tranquila.

    Beijo!
    (Não fique tanto tempo longe!)

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  5. Eu, em minha adolescencia, mim preocupava com a chegada da "velhice", eu via minha vó, na cama, reclamando de dores e da vida, que eu torcia pra morrer antes disso, hj com trinta anos eu tenho mim preparado, fisica e mentalmente para a tão chegada a hora de dizer que ja sou um idoso, mais confesso que ainda tenho um pouco de medo desta hora, de dar trabalho aos outros, de nao ter ninguem por perto, quero ser o primeiro a morrer, entre meus amigos quando estivermos "velho" pra nao ter que encarar a solidão.
    Um Abraço.


    http://paulosergioembuscadotempoperdido.blogspot.com/

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  6. Interessante, Paulo.
    Mas você não acha que esse medo de 'dar trabalho' não está ligado à uma possível futura cobrança ou de alguém te fazer se sentir um 'peso'?
    'E se eu for cobrado, como pagarei esse favor'?
    E se você não for cobrado? Se for como eu disse, um agradecimento?
    Já imaginou se você tiver ao seu lado alguém que não lhe faça se sentir assim diante de um momento difícil?
    Até porquê o que nos faz sentir um peso é o modo como nos tratam...
    Grande abraço, Paulo!
    Valeu pela sua perspectiva.

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  7. Sim, concordo, este medo de dar trabalho esta ligado a isso mesmo. Eu tenho medo de ser um peso, mesmo que a pessoa que esteja ao meu lado, faça tudo com amor e carinho, em minha cabeça vai ter sempre a duvida, eu detesto depender de outra pessoa e quando vc chega nesta idade agente sempre depende de alguem pra alguma coisa.
    Um Abraço.

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  8. Sei como é, Paulo... também sinto isso, cara.
    Mas como você disse, talvez não seja possível fugir dessa situação. Aprenderemos talvez na marra mesmo...
    Abração!

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  9. own meu bem, vc tá certo, é por isso mesmo que eu fico louca da vida =\ . Mas estou tentando me controlar :D



    (Fico um pouco afastada por conta dos estudos, aee fico sem tempo de escrever, conversar e dá sinal de vida. Mas fico feliz por saber que faço falta , obrigada pelo carinho)

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  10. Bruna, o importante é manter a autenticidade dentro da realidade. Cada um tem o seu momento e a vida não tem esse 'padrão' que mostram.

    Quanto ao afastamento, sei como é...
    A vida tem suas exigências indelegáveis.

    Beijo!

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