27 de mai de 2011

A Formação Humana


Maria Alice ou, como era costume naquela idade, Tia Maria Alice.
O nome da melhor professora que já tive. Nosso primeiro contato foi há quase trinta anos e ainda hoje, a lembrança dela permanece guardada com todo o carinho merecido, numa gaveta especial do meu coração.
Tenho certeza que nem só a mim isso é relativo. Tia Maria Alice era uma unanimidade entre os alunos da Escola Municipal Carlos de Laet, que tiveram o extremo prazer de tê-la como professora. Quem passava por seus olhos, se humanizava instantaneamente. Não importava o problema que cada um de nós tivesse em casa: na professora Maria Alice, encontrávamos a atenção que muitas das vezes nos faltava no círculo familiar atribulado. E acreditávamos nisso com todas as forças.
Professora de profissão, por consequência de um dom, ela nos fazia ter certeza de que, para ela, eramos importantes, essenciais. E isso muitas das vezes nos era suficiente para crescermos sadios. Aquele amor, em uns era o carinho que não recebíamos, era o alimento básico que nos faltava à mesa, era o brinquedo que não podíamos ter.
Tia Maria Alice não tinha nada e, ao mesmo tempo, nos oferecia tudo o que precisávamos.
Um olhar de compaixão e de interesse, um sorriso de compreensão, mesmo quando tinha a extrema necessidade de chamar nossa atenção... Não apontava erros, preferia evidenciar qualidades, mesmo que mínimas.
A amada professora fazia questão de buscar na sua cuidadosa observação, o que cada um tinha de melhor, estimulava-nos, acompanhava-nos, criava oportunidades, estreitava laços...
Tia Maria Alice entrou na minha vida, aos seis anos, no início da aplicação da série C.A. (Classe de Alfabetização), logo após o jardim de infância.
No primeiro dia, ao fim da aula, fez no quadro, o desenho de uma casinha e escreveu ao lado 'Para Casa' - termo usado para o 'dever de casa'. Um dos colegas achou engraçado o jeito de como aquilo se apresentava, no que ela profetizou:
-'Para Casa' sim, com casinha e tudo. Pra vocês se lembrarem de mim sempre. Pra quando vocês crescerem e irem me visitar bem velhinha, recordarem: lembra do 'para casa' com desenho de casinha, professora?'
Eu lembro, professora...
E hoje consigo identificar que te sobrava amor, dom.
Coisas simples, aparentemente banais. Mas extremamente marcantes, sinceramente felizes.
E a gente aqui, buscando nos grandes feitos, nas grandes saciedades, a felicidade suprema.
Hoje em dia, somente à procura da estabilidade do emprego público, tantos ingressam nas linhas de educação- assim como nas de saúde e de segurança- sem o menor comprometimento com as causas, trazendo consequências tão negativas no coletivo social, que abafam os que amam educar, instruir, preparar e contribuir para a formação do ser.
Estamos preocupados com os cargos e ignoramos os encargos exigidos...
Falta amor, sobra rancor. Sobra ambição, falta compaixão.
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Tive outros bons professores, como o Paulo César de biologia, que após dar aula em outros dois colégios durante o dia, ainda nos lecionava à noite, na Escola Estadual Senador Antônio Vilela. Cansado, mas com bom humor. Era capaz de fazer a turma inteira do segundo ano do segundo grau esperar sua aula... nos dois últimos tempos de sexta-feira!
Fingia tanto ensinar que ensinava fácil.
Sobrava doação, dom.
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Ao que submetem os professores de hoje, posso considerar uma grande covardia.
Aos verdadeiros educadores, estes que fazem tudo o que é possível -e com prazer- dentro e além de suas obrigações profissionais.
Não é justo culparmos os professores pela sociedade atual, isentando a família negligente de suas irrevogáveis responsabilidades. A família continua sendo a base do ser humano, e assim será pra sempre. A formação humana é a soma de sua educação moral e sua educação intelectual. São as duas asas do progresso. Tudo está ficando a cargo desses heróis.
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Sempre estudei em escolas públicas, em instituições geralmente com fraquíssima estrutura física e limitação pedagócia, com professores mal reconhecidos e tão marginalizados quanto nós, seus alunos.
Mas esses que ficaram em nossos corações, jamais viram em tais obstáculos a justificativa para não realizarem suas tarefas no limite de suas capacidades.
Sendo eu hoje, um fracasso ou um sucesso, a eles, minha eterna e carinhosa lembrança e gratidão.

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